uma crise da teoria política. Esta pode ter potência suficiente para explicar
o processo que alimenta a crise sem que isso implique que possa, por si,
controlá-lo e corrigi-lo. Mas pode uma aplicação inadequada de conceitos
e de relações de uma teoria política, sobretudo quando feita numa sociedade onde as suas normas abstractas e os seus pressupostos não têm verificação assegurada, vir a ser um factor significativo do agravamento dos processos de crise que estivessem latentes ou em fase primária de manifestação.
Este é um efeito conhecido nos processos falhados de modernização
social, onde a sociedade «receptora» rejeita os estímulos introduzidos e
desencadeia um processo complexo de crise, onde à instabilização irreversí-
vel das estruturas tradicionais se junta a instabilidade específica produzida
pelos programas de modernização. É um efeito explicável sem dificuldade
pelas diferenças de estruturas culturais existentes entre as sociedades «inspiradoras» ou «imitadas» e as sociedades em modernização. Apesar do
voluntarismo dos dirigentes políticos e da adesão de alguns estratos sociais,
a generalização e a auto-sustentação do programa de modernização podem
ser impedidas por efeito de resistências sociais ou de circunstâncias imprevistas para as quais não haja capacidade social de resposta eficaz. Nestes
casos, a perturbação introduzida pelos estímulos de modernização não é compensada pelos ajustamentos sociais e toda a sociedade entra num estado de
indeterminação no seu funcionamento normal ou de rotina: não pode retomar o seu estado anterior, mas também não consegue estabilizar uma estratégia viável para o futuro na base desse programa de modernização. E o
facto de a teoria disponível explicar satisfatoriamente este processo de desequilíbrios não implica que seja possível dominá-los com os meios de intervenção existentes nessa sociedade.
http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223553750W1xOO4ze9Hi18GA1.pdf
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